Teatro X
( 2 de dezembro de 2008)

Terça-feira, chuva da porra e um homem passando por um feliz
e extenso alvará de soltura do casamento está saindo do trampo para ver um show do La Carne. Vou crente que vou encontrar aquele piso pegajoso de cerveja, aromatizado de poeira, suor e couro velho.

Anticlímax: chego ao tal Teatro X e descubro que ele é um teatro mesmo! Com cadeirinhas fixas e tudo. Quase ninguém na área, só rango ruim por perto, e nenhuma cerveja escura à vista (sou um homem simples mas meu fígado é um esnobe que dispensa Pilsen). Mas é o La Carne que vai tocar, e os camaradas vão estar lá.

Bom, quase isso: chego lá, só tem o Carlinho. Bacana, mas porra, vim na seca pra ver se encontrava todo mundo, bebia, pedia demissão e divórcio e voltava pra fronteira. Era esse meu plano. Mas a gente só sentou e engatou num papo tranquilo sobre essas coisas todas das quais eu quero fugir.

Mas aí veio chegando... primeiro Chicão, depois o Jorge, depois uns malucos que viraram brothers na hora... Quando vi, contrabandeei umas escuras pra dentro do Teatro e fiquei vendo o som passar. O Linari chegou e eu me dei conta que eu estava curtindo pra caralho tudo aquilo.

O foda de show em São Paulo é que, mesmo que seus amigos estejam na parada, a coisa toda fica meio frau. Cadê o pogo, porra? Eu esperando aquela sangria desatada que rolava em Curitiba, no interior de SP, onde tantas vezes vi a banda. Todo mundo sentado, bebendo civilizadamente, aplaudindo. OK, era terça-feira, mas já disse Ronaldo Bôscoli que todos temos que viver nossa necessidade de morrer um pouquinho.

Tortura ver aquela parada sentado... Baixão arrancando nacos do estômago, Linari empenhando a alma dos filhos que não nasceram para largar uma voz que nem no Apocalipse se ouvirá igual, Jorge jogando pedaços de carne crua e sangrenta num ventilador industrial... E o Chicão, velho! Pô, puta bateria de macho! "Marimbondo" foi hiperacelerada, todo mundo numa vibe de "ceis tão ligado que isso aqui é rock?". Sem zoar predecessores, mas nunca tinha pego um punch desses saindo das peles e pratos em um show do La Carne... Aí vem "Vergonha na Cara" e eu não me aguento nas cadeiras, tenho que sair, socar o ar, enrabar o baterista do CSS, encher de porrada aqueles viadinhos de iPod e óculos de aro grosso escutando Vanguart na entrada do Espaço Unibanco... Enfim, fazer algo útil da vida!

Termina a parada. Enrolo pra cacete pra ir embora. Tenho que acordar cedo, mas não dá vontade de sair. Trampo, casamento, contas, etc? Foda-se. A gente vive com o que a gente buscou. Trampo no que quero, casei com a guria que eu quis, as contas que pago são das coisas que eu quis comprar. Tô reclamando do que mesmo?

Volto pra casa com a certeza de que ainda não inventaram coisa melhor na vida do que sentir a própria vida pulsando nas veias e saindo bombeadas num vômito espiritual que refaz a vida de qualquer cara resignado.

Aliás, resignado eu? Porra nenhuma. Tem show do La Carne na próxima terça de novo, né não? É nóis.

Abraço!


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Leonardo Vinhas é Editor da revista UM, e escreve em:
http://www.memoafetivaatual.blogspot.com/
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