Pindamonhangaba - SP

De vez em quando isso acontece. É o tipo de coisa que salva o seu dia, e se marcar a sua semana também. Um tipo de coisa que só quem já passou tudo que é perrengue sabe do que tâmo falando.

Aí que chegamos lá em Pinda, um calor da porra, e desembarcamos na casa do Zé. Aí chegou AZ e os manos lá do Pale Sunday. Depois veio Bôi e os Seamus, Mentecapto e as Maquiladoras. E tinha os cachorros. Tinha também o pai e a mãe do Zé, com aquela simpatia que te deixa tão à vontade que você fica se segurando pra não dar vexame. E ainda tinha um rango. Aí é demais.

Depois cerva, histórias, chuva, mais cerva, mais chuva e até o cara que foi um dos fundadores do Street Buldogs tava lá.

Ficamos ali na idéia com os Pale Sunday. Gente sussa, na deles, sem afetação. Ou seja, a nossa cara. O maluco lá, que também toca no Alma Mater, tem um teclado dos anos 80. Daqueles com uns 30 kilos. O Sindoval faz fanzine desde os primórdios e descolou até de lançar eles nos states e europa por causa disso. Os nêgo tem fãnclube de Boston até a Holanda. Tem a moral? O Gustavo tava no mesmo show do Teenage Funclub que o Jorge. E ele comprou ingresso na hora com um cambista. E não é que a porra do ingresso dele era um vip total? E quando ele viu tava no camarim, trocando idéia e tudo mais? Azar do cambista, sorte a dele e Concept na cabeça de quem viu. E tem mais, tem o senhor AZ na bateria. Sim, aquele AZ lá de Franca, uma das vozes do Studio Eleven. Um dos responsáveis por a gente ter ido pra tão longe. Ele que entrou aos 45 do segundo tempo na banda. Pra segurar a onda. E o troço rolou tão legal que ficou com os caras e tão fazendo show um atrás do outro. É a vida. Sincronicidade. Isso não se explica.

Aí rumamos pra Choperia. Mais chuva. Chega Wellington Gramophone e se junta á corja. Estacionamos bem na porta de uma igreja evangélica. Imagina a cena. Aquele bando de gente mal trapilha em frente à igreja rogando ao Deus do Rock que parasse a chuva e desse tudo certo no show. Foi bonito de se ver. Tá, pra quem via de longe parecia que o apocalipse enfim era verdade. Já tinha até gente confessando que dera um tirinho na vida. Mas que foi só naquela festa, e que quem dissesse o contrário iria se ver com ele nas portas dos céus.

Nisso parou a chuva e fomos na padaria pra um cafezinho. Ah, tava o Andy também. Esse é firmeza. A moça da padoca, toda solícita, olhou aquela gente e abriu um sorriso reconfortante e disse que o café ela tinha acabado de passar. Foda, né?

Já na choperia a coisa começou a funcionar. Os nêgo arrumando as tralhas, o som chegando, encontra um amigo aqui, outro ali, uma sinuquinha acolá e tá tudo certo. Sorteio das bandas e a ordem ficou: Pale Sunday, La Carne, Maquiladora, Mentecapto e Seamus.    

Depois rolamos idéia com as Maquiladoras. E a Thania é mó fã da dona Polly Jean Harvey. Claro, aticei ela com histórias do Tim Festival e de como a PJ acabou com a noite lá. A Andréa também deu umas dicas de uns picos bacanas pra show ali por Mogi e região e depois ficamos naquela brodagem classe A.

Os Mentecapto são, definitivamente, uma mistura de festa estranha com gente esquisita, saca? Que isso, tudo nêgo do bem. Régis do Somata e sua simpatia absurda também tava lá. Só brother. Chegaram também os The Vain. Esses sim, elementos que não podem ser levados a sério, pois suas intenções deixariam com vergonha até o Buttman.

Cervejinha aqui, uisquinho, domecq, coca, não necessariamente nessa ordem, foram fazendo a cama pra começar as bandas. E, na nossa modesta e suspeita opinião, os shows foram assim:

O Pale Sunday que abriu a festa. Falar do som da banda que o AZ toca é foda. Pô, o cara sabe tudo de som de toda a parte do Cosmos, é embassado. O Pale é uma guitar band brazilian indie-pop. Twiggy superstar já é hit aqui no trampo. Tá, tem uns ataques agressivos vez ou outra. Mas o que préza ali é melodia. Sabe aquela coisa de 4 notas. E que sempre dá certo? Pois é isso aí que eles fazem. Sem firula. Sem virtuose. E o melhor, dava pra ver que eles tavam curtindo o que tavam fazendo. Só isso já paga tudo, nénão compañeros? Teve até versão da primeira música lançada pelo Primal Scream. Ó o nível. Levei o cd pra casa e já tá no playlist do trampo. Ah, nota de rodapé. Uma pá de gente chegava pra ver qualé da banda e acabava ficando por ali mesmo. Classe A amigos! Ouça lá.

Depois foi a gente. Havíamos feito um pacto de tocar todo o disco novo. As músicas estão se acertando e na fogueira do ao vivo é que as coisas funcionam. No final, foram 10 músicas. 9 novas. Teve backing vocal e Chicão estreiando com chave de ouro. Esses sons estarão no nosso próximo filho que nasce em breve. E a gente tá gostando muito dele. E o Wellington Gramophone tem uma culpa fudida nisso. O que esse brother tá fazendo pela gente é muito, mas muito mais do que merecemos. É a tal da sincronicidade. Ó ela aí de novo.

Big and fat heads. Maquiladora na cabeça. Já dissemos que essas meninas colocam muito marmanjo pra rever seus conceitos de som? Pois vamos dizer de novo. Essas meninas colocam muito marmanjo pra rever seus conceitos de som. Thania domina o palco. Tem a mãnha. Isso não se aprende. Você tem ou não. Andréa desce a mão na batera sem dó. Nynona e Thais ficam na delas. Não menos insanas, no caso. Elas debocham de todo mundo ali na frente. É, isso não vai ficar assim não Maquiladora. Pode crer que vai ter volta. E elas ainda são simpáticas ao extremo. Too much wine dá nisso.  

Aí começou a catarse. Era a vez do Mentecapto. Ao som desse réquiem convido vocês a dançar. Porra, do caralho! Alexandre, André, Henrique, Leandro e Priscila. Insano. “Numa sala escura só se ouvia gotejar, vozes de criança gotejando pelo ar.
Em meus braços, levo esse mal pra mim”. Olha isso. Essa semana eles tão indo pra Minas. Fica esperto, esses maluco vão aprontar ainda. Vai por mim. Ouve lá, baixa os sons, e se prepara. “Não seeeeei. Não sei!!!”. Se fodê, isso não se faz.

Aí fudeu tudo de vez. Veio o Seamus e os ampli já olharam de lado botando a língua pra fora. E não deu outra. Começou a apagar um ampli aqui, cair um pedestal ali, só pra se ter uma idéia. Veio segurança e pediu pra abaixar o som. Pra desligar, sei lá. Só que a cada hit dos caras a coisa ficava pior. Modern dance e Blame foram tipo aqueles moleques na escola que fica agitando pra sair trêta, saca? Mas não saiu trêta. Mas pifou ampli. E caiu pedestal. E apagou pedal. E pegaram o microfone pra cantar junto. E foi lindo. Perfeito. Como um show de rock deve ser.   

Quando acabou tudo ficou aquele clima. “Pô, cabô mesmo?”. Aí as almas foram vagando e se escorando pelas paredes. Depois fomos pro lanche do trailer. Básico. 4 real e um lanche almoço-janta. Juntou todo mundo de novo. Comendo e bebendo e rindo e, inconscientemente, não querendo que aquilo ali acabasse. Porque tava tudo muito bom. Porque foi tudo ótimo. Tudo.

Olha só, tá bom, pode ter nêgo que cola aqui e pensa: “Pô, os cara só falam bem de show. As bandas são sempre ótemas!”. Mas ó, parafraseando novamente nosso grande amigo Mário, que culpa temos de ter amigos talentosos? E digo mais, feliz da gente por poder tocar com bandas interessantes assim. Bandas que entendem como a coisa funciona. Você não imagina a satisfação que isso dá. A única coisa que a gente vai levar disso tudo é isso.

Então, que se foda. Eu quero sim os meus amigos perto de mim. Mesmo que seja tocando pra 15 pessoas. 10. Que tal 5? Mas que seja de verdade. Ó, não há nada que eu goste mais do que um sapato velho. Ressecado. Carcomido. Uso ele até se desintegrar. Só pra vc ver que eu não jogo nada fora. E com meus amigos é a mesma coisa. Isso significa que em breve eu vou vir aqui e escrever tudo de novo. Do mesmo jeito.

Então, encare os fatos. O mundo é sujo e cruel com gente como nós.

Vamos brindar a tudo isso, ok?