JUNDIAÍ - SP
(20.05.2011)

Diferente de quase todas as vezes que viajamos pra tocar, dessa vez a gente foi em dois carros. Nossos amigos-comparsas Eduardo e Bill R encararam o rolê com a gente e rumamos pra Jundiaí em uma mini-carreata-osasquense. 

E ó, foi sorte ir dois carros, viu? Se desse uma zica a gente tinha um resgate ali na hora. Isso porque um dos laca-móvel abasteceu um dia antes e aí, coincidência ou não, ficou uma senhora de uma bosta. Engasgava, dava sinais que não ia chegar e só conseguimos desencanar um pouco devido a audições ininterruptas de Fugazzi, Smiths, Toe, Cypress Hill e mais um tiquinho de Fugazzi.

Depois daquela perdida básica pra achar o local, nos deparamos com um lugar classe A! O pico parecia mais um galpão velho, uma fábrica, uma escola abandonada etc. E ainda saímos sem saber o que tinha sido ali. O esquema era assim, ó:

Você chegava com o carro, subia uma rampa e no final, à direita, tinha um estacionamento. Mó grande. Em frente, uma paredona com uns grafites a lá Os Gêmeos fazia as boas vindas da casa enquanto um Rottweiler pulava e esgarnecia com a nossa presença. Aí, quando você saía do carro e olhava à sua volta via que aquele estacionamento já emendava em uma pista com mesinhas e cadeiras e um bar e uma mesa de sinuca (na faixa!) e aí, lá no final, tinha um palco. Tudo praticamente no mesmo ambiente. Da hora!

Colamos e na sequencia já vieram os caras do local e os amigos do Cães Ilustres com toda simpatia nos mostrar o esquema e dizer que ali na frente tinha um rango, que depois de hora tal o bagulho bombava etc e tal.

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E não bombou.

Pelo que disseram, fazia tempo que de sexta feira a casa ficava vazia daquele jeito. Mas aí, o Kabelo veio e disse que ali perto tava rolando Dead Fish e que se marcar depois apareceria mais gente. E ó, até que tinha uma galera ali sim, o foda é que como o local é gigantesco, aí já viu, né?

E a cada 20 minutos vinha um e nos dizia essa história da casa vazia e do show que tava rolando ali perto, meio que se desculpando e se justificando. Era uma consideração com a gente que até comovia, sabe?

De verdade, quem nos conhece sabe que isso nunca é e nunca será motivo pra tocarmos em um ou outro lugar. Algumas das nossas melhores lembranças são de situações totalmente perdidas e que, do nada, fizeram a noite valer a pena. Como aquela em que um cara que tava escorado na parede, isolado e sozinho, de toca na cabeça e mão dentro do blusão, veio e sacou um cd que tinha feito com sons da gente que ele tinha baixado. Disse que curtia os sons e que ouvia a gente há mó tempo. Ficamos congelados e sem saber o que dizer. Era um lugar longe, fazia frio, o som tava ruim e aí, quando estávamos quase entregando os pontos, acontece um lance desse. E esse é apenas um exemplo. Tem muitos outros. Pois é, não dá pra duvidar que as coisas podem sim conspirar a seu favor. Em qualquer situação, por mais estranha que ela seja. Enfim, não tem como não levar a sério aquela idéia que te diz pra sempre ser ousado, porque aí poderosas forças virão ao seu auxílio.


Quando era mazômeno uma da manhã os Câes Ilustres abriram os trabalhos. Os caras estão divulgando o disco deles e aí mandaram uma mescla de sons próprios, covers e até umas músicas que entrarão no próximo disco. Bóra produzir compadres!

Depois foi a gente.

Era quase 3 da manhã, fazia um frio da porra, o lugar era ao ar livre e as pessoas já começavam a ir embora. Um dos mais animados era um bêbado que ficava ali na frente do palco pedindo Raul e um trago. Pra ajudar, algum problema com a montagem e microfones da bateria fez a gente ficar cozinhando no palco uns 15 minutos. A gente se olhava e lia um no olho do outro: “Ixi... vai ser foda!”.  
Mas uma banda tá aí pra isso, nénão? A gente capota, mas não breca.  

Começamos o show. E o que aconteceu foi o seguinte, “ipsis literis”:

Quando começamos o som tinha algumas pessoas ali perto que colaram pra assistir. Um monte de gente já tava nos preparativos pra ir embora e se dirigia pra saída com suas bolsas, mochilas, namoradas e namorados. Mas nisso também tinha gente que tava ali nas mesas, trocando idéia, rindo com os amigos, se congratulando entre um e outro gole e, na pior das hipóteses, de vez em quando olhava pro palco pra ver o que tava acontecendo.

E não é que, música após música, foi colando gente pra ver e ouvir o que aqueles velhos tolos estavam gritando àquela hora da madrugada? Nossos amigos dos Cães Ilustres, que até então estavam firmes, fortes e sozinhos no frio, de repente tiveram a companhia de gente que chegou e foi pro lado, outros pra frente e outros que levantaram da mesa e vieram pra pista. Do nada, sabe-se lá porque, subitamente agora nos olhavam nos olhos e a gente, num misto de surpresa e satisfação, retribuía do único jeito que sabemos: que é tocar com sangue suor e raiva.

Foi genial.

Depois ficamos nos perguntando qual o significado daquilo? Quem eram aquelas pessoas? Porque fizeram aquilo?

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Houve um tempo em que a gente se achou invencível e até pensou que poderíamos viver eternamente. Com o tempo, e algumas capotadas pelo caminho, aprendemos que não somos invencíveis e que a derrota seria muito feia se jogássemos do jeito deles. Por outro lado, com o tempo também descobrimos que podemos sim viver eternamente. Do nosso jeito. No nosso ritmo. E viver sempre contra a corrente não é fácil. Mas é redentor, sem sombra de dúvida.  
Somos tolos e simplórios e nossa ambição é apenas fazer bons discos. Um após o outro. E se tem alguma verdade por trás disso tudo, é essa: o melhor será sempre o próximo.   
  

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A todos vocês que estiveram lá em Jundiaí, obrigado.
Vocês foram tremendamente gentis conosco.

Muito obrigado.

FIM