11.12 - JIVE (Piada Pronta)
ou "Tucanaram o underground!"


Hoje, não falaremos aqui de como era o lugar. De como era bonito. Bem arrumado. Cheio de móveis antigos, coloniais. Com sofás, cadeiras, espelhos, quadros de desenhos do MZK, máquina de flipper e até camarim pra banda...não, isso não é importante. Porém, e como tudo sempre tem um porém, parece que alguma coisa conspirava contra toda aquela opulência do lugar.

Esse tipo de coisa não mais nos impressiona. E não é coisa de morrer de amores pelo underground – até porquê esse termo já não exprime mais o que fez a gente começar a gostar desse negócio do rock.

O tal do underground. O tal do lugar em que hoje pessoas sem conhecimento de causa se arvoram a querer representar. Com seus cabelos “cuidadosamente” desarrumados e seus trejeitos pra parecer o mais cool possível - como disse nosso amigo Jair, certa vez.

Aí estava tendo som na pista. Mó galera dançando. Os “in” dominavam a parada. Os tais playboys do underground. O que é que fizeram do underground, hein? Que coisa. E a gente ali, caçoando da má sorte.

Aí foi assim que aconteceu. Quando o La Carne subiu no palco tava rolando o som da pista. A moçadinha lá. Aí, antes do primeiro acorde, todos, entendam, todos se viraram e foram pra outro lugar. Só sobrou os que tinham lá ido ver a gente. Não que isso nos incomode, até porquê não estamos aqui pra entreter ninguém. Mas de qualquer forma foi engraçado. Fazia tempo que não acontecia isso.

Mas há um pormenor que merece destaque. O mais louco não é o fato de não gostarem da banda. E sim o lance do “não ouvi e não gostei”. É sair como se não houvesse nada rolando ali. Sintomático isso.

Enfim, a gente até entende, a festa ali era deles, quem somos nós pra atrapalhar e tal? Foi meio que tragédia anunciada isso, desde a hora que entramos lá e vimos o naipe do esquema todo.

Aí foi, tocamos pros poucos e atentos que estavam lá pra nos ouvir. O La Carne não é uma banda “pula-pula”, não tem pessoal dançando enquanto tocamos, e sim pessoas quietas e atentas ao som. E isso é muito importante pra gente. Não estamos aqui pra entreter ninguém. E ponto final. E pagamos o preço por sermos assim. E tudo bem. Um brinde.

Aí tava acabando o som. Faltavam duas músicas. Beleza DJ? Aí o tal do DJ, um tal de Flávio “POSER” Forgotten, disse que já era pra acabar, porque o tempo isso, o dono aquilo. Aí, descaradamente, soltou o som da pista em cima da gente ali no palco. “Ah, o dono que mandou”. “mas cadê o dono, quem é?”.

Enfim, nessas horas é sempre “o cara que mandou”, “eu não sei de nada”. Essas coisas.

Que o som tava alto? Bem, sinto muito, o La Carne toca alto,sim. Que o pessoal não gostou? E desde quando a banda está aqui pra agradar todo mundo? Desde quando o rock tá aí pra agradar todo mundo? Ele está é justamente pra oferecer a dúvida. A tal da outra proposta. Bah, deixa pra lá, não dá pra explicar isso.

Mas foi assim. Simplesmente desligaram a gente. Não por não termos “agradado”. Mas sim como se não estivéssemos lá, como se não queriam que estivéssemos lá. Como se não houvesse tido nada lá.

E o Flávio Poser Forgotten com seu rayban e seu chapéu de cowboy ainda tem banda. Creio que ele saiba do que tô falando. Do mínimo de respeito que se espera. Ou seja, respeito o caralho, tudo é competição meu irmão, não existe isso de brodagem aqui no meio onde eu vivo.

Ah, então tá.

Aí teve bate-boca, ninguém entendeu nada, uns foram argumentar com o boi dj, mas no final, desligamos e saímos do palco.

Juro que tentamos depois entender a coisa que aconteceu. No que foi que esses plaibóis transformaram o underground em que nós vivíamos?

Hoje é fashion se dizer underground. A coisa do fazer, que é própria do underground não existe mais. Pelo que sei, underground hoje é só Sinfonia dos Cães, Gramophone, OUTS e Studio 11 que dão vozes a toda essa gente. E as rádios comunitárias também por aí. Enfim, como diz o macaco Simão , “tucanaram” o underground.

Nisso, o louco mesmo foi quando saímos pra ir embora e vimos todo mundo de volta na pista e dançando e pulando como se nada houvesse acontecido.

É, tudo é meio cruel quando a gente perde.

Onde é que essa civilização decente nos levou?

PS.: E no sábado, a Folha de São Paulo, ao falar dos shows para o fim de semana, o Lúcio Ribeiro disse assim sobre esse show que rolaria no JIVE à noite:

“La Carne. O underground do underground”.

É, alguém já tá compreendendo perfeitamente o lance todo.

FIM